Para transformar é preciso inspirar

Todas as pessoas que me causaram mudança me inspiraram de alguma forma. Fizeram com que eu chorasse e me sensibilizasse com o que eu vi, li ou ouvi delas. Fizeram com que eu quisesse não só me inspirar por elas, mas expirar aquilo que há dentro de mim e que pudesse inspirar também.

Quando começo a pensar sobre responsabilidade e sobre o mundo em que estamos vivendo, vejo muitas rupturas. Nós aprendemos a nos responsabilizar por coisas que não são nossas, e esquecemos de nos responsabilizar por aquelas que são.

Eu sou responsável por tudo aquilo que eu penso. Falo. Como. Crio. Destruo. Eu sou responsável por aquilo que as pessoas interpretam do que eu disse, mas não sou responsável pelas emoções que elas externalizam a partir daquilo que interpretaram. Eu sou responsável pelas minhas emoções. Somente as minhas. E todo o efeito delas no Universo.

Quando compreendo isso, começo a me mover de forma diferente pela minha vida. Enxergo com mais lucidez e clareza o que pode causar mudança efetiva, porque me relaciono intimamente com o que causou mudança saudável em mim.

Dentro disso, está o social. Estão as pessoas com quem eu me encontro, as pessoas a quem atraio, as situações que presencio. E o que eu posso fazer com tudo isso? No começo do meu encontro com as transformações sociais, quando criei intimidade com o feminismo, há cerca de 5 anos mais ou menos, eu lembro do quanto doía. Do quanto eu chorava e gritava pro mundo tudo que estava acontecendo. Eu briguei, eu gritei, eu criei muros. Eu fiquei muito sozinha.

E aí foi ótimo. É muito importante ficarmos sozinhas. Os melhores processos de autoconhecimento me aconteceram assim. Nós vivemos as experiências, mas é sozinha que aprendemos a assimilá-las internamente e efetivar a mudança.

Mas eu ainda sofria muito. Não havia como me entorpecer depois das informações: aquilo tudo estava dentro de mim me despedaçando. Aquilo fazia meu coração tremer e pulsar. Mas sangrar também. Aquilo não estava construindo nada.

Eu demorei muito pra entender o que o patriarcado causa de problema profundo e efetivo na nossa vida. Eu entendi a inferiorização das mulheres. Eu entendi a hierarquização social. Eu entendi a violência linguística, visual e midiática em que vivemos. Mas eu demorei pra entender que o que o patriarcado cria são muros.

O patriarcado quer que nós assimilemos homens e mulheres como seres distintos. Ele quer que nós continuemos pregando um feminismo liberal que grita e abraça com agressividade a mudança, pra que a mensagem não consiga ser passada. Ele quer que as mulheres fiquem tão revoltadas, que quando elas tentarem efetivar mudança, elas estarão com tanta raiva que a mensagem acabará corrompida.

Se eu acredito num mundo em que os homens são imutáveis, iguais e incapazes de mudar, eu abro portas pra que a verdadeira mensagem fique presa, escondida, velada. Eu incentivo que a guerra continue, sem propósito real, apenas destruindo tudo cada dia mais.

E não foi essa a mensagem que me inspirou.

Quando eu compreendo profundamente, dentro do meu coração, que o gênero é uma construção social, eu entendo que o meu feminismo é o feminismo de todos.

Eu passei muito tempo brigando com os meus demônios, e sem compreender como eles acabavam interferindo negativamente no que eu tentava transformar em mim e no mundo. Eu tive que ficar muito só, pra olhar pra mim, e entender realmente o que cada dor que eu sentia queria me comunicar. O que cada lágrima, cada pontada no estômago, queria me ensinar.

A nossa realidade social já está muito triste. As pessoas estão sofrendo, sofrendo muito. Com tudo. Nós estamos infelizes com nosso trabalho, com nossos relacionamentos, conosco. Nós estamos infelizes conosco. Eu repito mantras todos os dias pra aprender a me amar. Pra tentar aprender a olhar pra mim sem me comparar com ninguém, sem esperar o tempo todo que eu seja melhor. Pra aceitar que eu sou. Eu sou. E isso é a única coisa que importa.

Eu aprendi que a minha alimentação afeta diretamente na minha saúde mental. Aprendi que quando eu olho pra mim com amor, eu não me destruo com alimentos que ferem profundamente o meu organismo. Fragilizam a minha mente. O meu espírito.

Eu aprendi que se eu me alimento com palavras e pensamentos positivos, alimentos crus e vivos, eu sou uma inspiração pra mim. E eu causo mudança efetiva no mundo.

A questão da responsabilidade vai mais fundo por isso. Quando eu entendo que eu influencio as pessoas ao meu redor, que as minhas atitudes impulsionam quem está ao meu lado, eu começo a cuidar pra que as minhas atitudes passem a mensagem verdadeira. Eu paro de achar que o que eu como, o que eu falo, o que eu consumo é só problema meu.

Quando nós vemos uma pessoa fazendo alguma coisa, qualquer coisa, e essa pessoa parece feliz, nós nos influenciamos por aquilo. Quando uma pessoa está passando uma mensagem que parece ser honesta e justa com raiva e tristeza, nós também nos influenciamos por aquilo. Nós nos afastamos daquilo.

Quando eu entendo que a prática do feminismo parte do princípio do respeito e o respeito parte do amor, eu paro de brigar. Eu entendo que o mais importante é a maneira que eu me porto, é a coerência daquilo que eu digo com aquilo que pratico. É a compreensão de que se eu acredito que a sociedade precisa olhar para as mulheres como seres capazes e inteligentes, com particularidades complexas, eu preciso olhar pra todo mundo assim. Todo mundo.

Muitos homens não conhecem as mulheres. Quanto mais eu recebo comentários respondendo o texto no Papo de Homem, mais eu percebo o quão distante os homens estão da nossa complexidade. Eles acham que existe uma diferença muito grande entre nossos mundos, que somos seres muito estranhos e que em nada nos assemelhamos. Nessas, nós continuamos a incentivar os muros. Nessas o patriarcado continua ganhando.

Se eu entro na minha rede social, e eu grito pro mundo que eu odeio todos os homens, todas as trans*, todos aqueles que não são exatamente como eu, eu construo uma realidade muito difícil. Eu construo uma ruptura muito profunda. Eu destruo toda e qualquer porta de comunicação e encontro. E eu preciso do encontro pra me inspirar e me transformar. E depois expirar o que sou e transformar também.

Se eu grito pro mundo que todos os homens são horríveis, o patriarcado continua vencendo.

Se eu grito pro mundo que todos os homens são incapazes de mudar, o machismo continua matando.

Se eu grito pro mundo que eu odeio os homens, eu nunca ensinarei a amarem as mulheres.

Eu externalizo aquilo que está dentro de mim. E eu entendo o que é sentir revolta. Eu entendo o que é sentir raiva. Mas eu entendo também que permitir essa raiva sair da maneira que entrou sem nem me questionar sobre o que ela atingiu ou alcançou dentro de mim, faz com que eu continue me punindo, eu continue um ciclo infinito de ódio imutável e incapaz de causar mudança.

Quando eu vivo uma situação que me machuca, abraço as emoções de tristeza e dor, e aprendo com elas, aprendo quem eu sou com aquilo, aprendo como que aquilo se relaciona intimamente com as emoções que já existem dentro de mim, com experiências da minha vida, eu transformo aquela situação numa mensagem inspiradora.

Se eu vivo uma situação e sem questionamento algum eu exponho as emoções que aquela situação me causaram, eu continuo propagando superfície, eu continuo mantendo as mudanças no raso. Eu não encontro profundidade.

Mudança profunda é mudança orgânica, que transforma TUDO.

O homens nos comentários continuam nos comparando biologicamente pra justificar diferenças comportamentais. Por que será que eles precisam tanto se defender? Por que será que precisam tanto encontrar um ponto em que eles continuem se mantendo diferentes de nós?

Nós não estamos criando pontes. Nós estamos criando barreiras.

Se eu brigo comigo, eu brigo com todo mundo. Se eu não me conheço, eu fico tentando me encontrar em padrões e me fazer caber e encontrar com frases de autoafirmação segregadoras. Eu não quero segregar.

A segregação só continua gerando medo. E o medo faz com que os muros nunca se quebrem. Quando eu me desafio, quando eu olho pro meu medo fantasiado de raiva e de agressividade, eu não confundo. Eu sou capaz de passar a mensagem verdadeira.

Eu sou capaz de inspirar.