Sugestões para cultivar relacionamentos lúcidos

Observar o nosso comportamento dentro das relações humanas é a melhor forma de autoconhecimento. E observar é realmente a grande chave de mudança, uma vez que a mente vive num processo de atividade que não contempla a observação. Pelo contrário, a nossa busca incessante é por uma solução, uma resposta, uma verdade.

E partir do momento em que nos fixamos em tentar “resolver” uma situação, nos afastamos da causa inicial que nos levou ao sofrimento. Acabamos por elaborar respostas frágeis, superficiais e paliativas para o que vivemos.

Pensando num relacionamento amoroso, a situação funcionaria mais ou menos assim:

Você conhece alguém por quem se apaixona. Vocês têm tanta coisa em comum que parece mesmo o destino estarem juntos. Gostam de fazer as mesmas coisas, assistir os mesmos filmes, comer as mesmas comidas, beber a mesma cerveja. O que quer que seja que tenha feito você sentir uma conexão muito profunda e muito única com aquele ser humano.

Mas aí depois de um tempo tudo muda. Parece que a relação “esfriou”. Você se sente grande parte do tempo irritado, sem paciência com aquele que antes te gerava ondas de alegria. Você não sente mais vontade de beijar aquela pessoa, e, de fato, você percebe que talvez faça mais de uma semana (ou um mês) que vocês não dão um beijo entusiasmado, apaixonado. E o sexo, então! Você nem lembra qual foi a última vez que aconteceu.

A pessoa te incomoda. O que ela fala, a maneira que age, tudo o que você enxerga é feio. Você se pergunta onde foi parar aquela pessoa que conheceu. E começa a pensar que talvez você tenha mudado. E a pessoa também. Antes ela fazia academia, agora não faz mais. Antes vocês sentavam pra conversar por horas e agora nada do que ela fala te agrada. Antes ela era mais organizada, e agora parece sempre desleixada.

As justificativas são infinitas. Cada atitude, palavra ou post no facebook que a pessoa faz, é mais um motivo que você consegue encontrar para justificar a distância que existe agora entre vocês. E disso finalmente você chega à conclusão de que é preciso conversar, porque “desse jeito não dá”.

Mas a conversa que você elaborou internamente é, na verdade, um monte de apontamentos para aquilo que você está interpretando de fora (e ignorando por completo o seu papel dentro dessa troca). Serão apenas  julgamentos e agressões superficiais para hábitos que a pessoa sempre teve – e que não consegue mudar simplesmente de uma hora para outra – mas que, de alguma maneira mágica, agora se tornaram claramente insuportáveis para o convívio de vocês.

E aí quando a conversa acontece são usadas palavras manipuladoras, sem verdade, permeadas de raiva e afirmações de afastamento. Você quer muito que essa pessoa mude e se enquadre naquilo que você está julgando como ideal. Você aponta o que tem observado com frustração, tristeza, decepção. E, no momento em que ela discorda do que você disse e demonstra do lado dela o que não é legal no seu comportamento, você  sente que vocês não são mais compatíveis.

Vocês eram parecidos, mas agora são muito diferentes. As coisas mudaram: vocês não são os mesmos de quando se conheceram, ou pior, você até começa a enxergar que na verdade vocês nunca foram tudo aquilo. Que os sinais estavam claros desde o começo. Porque houve alguma coisa que a pessoa falou ou fez que realmente já te mostrava quem ela era, foi você quem não percebeu isso ou não confiou em si mesmo.

E a conclusão, com certeza, é a de que vocês precisam se separar, porque assim você vai ser feliz. E isso talvez você sinta, pense, mas não fale. Talvez por medo, encontrando justificativas como “nós moramos juntos”, “nós trabalhamos juntos”, “mas nós estamos juntos há tanto tempo”, “eu me dou tão bem com a família dele” e você fica. Descontente, mas fica.

Esse tipo de quadro numa relação alimenta um movimento de desconexão tão forte que eventualmente as únicas emoções que você sente pela pessoa são frieza e indiferença. É como se vocês tivessem se acostumado com o estar junto e fossem obrigados a se manter assim, porque realmente “não há outro caminho”. Você se mantém num relacionamento em que não se cultiva mais a alegria e o amor, e que os dois ficam por medo das consequências do término. Ou até chegarem num ponto de esgotamento tão grande que torna-se necessária a separação.

Comumente esse término é doloroso, abrupto e cheio de mágoas. Não há compreensão nem diálogo construtivo. Aquela pessoa se torna uma estranha, e a intimidade se dissipa por completo. Vocês se ofendem, se magoam, dizem suas verdades sem filtro nem flexibilidade, e ao final saem como dois incompreendidos.

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E isso, infelizmente, porque aprendemos a nos comunicar em dois extremos: ou somos falsos e não dizemos o que pensamos porque queremos parecer bons (“ah, mas eu não posso falar isso senão ele vai achar que eu sou grossa”); ou somos agressivos e dizemos o que pensamos sem tomar responsabilidade alguma sobre o que a nossa emoção vai causar no outro (“Eu falo o que eu quiser e não tô nem aí”).

Sem assertividade, jogamos com as palavras.

Somos passivos para parecer bonzinhos e não decepcionar os outros, mas depois carregamos rancor e ressentimento porque não respeitamos a nós mesmos.

Somos agressivos, intolerantes, nos impomos e acusamos, sem dar espaço para o outro se colocar.

Ou então manipulamos, sem respeitar ninguém, usamos de meias palavras, inverdades, e convencemos a pessoa de que a culpa é dela.

Não aprendemos a nos responsabilizar sobre aquilo que pensamos e sentimos. A expormos com respeito aquilo que nos aflige.

Num diálogo verdadeiramente construtivo, não fazemos apontamentos e julgamentos. Com franqueza, falamos apenas do que sabemos com certeza: sobre nós mesmos. Não falamos que foi errada a maneira como alguém se comportou, mas sim sobre como aquele comportamento fez com que nos sentíssemos. E nisso não há drama, agressividade, ou manipulação.

As pequenas situações que geram emoções que nos incomodam devem ser expostas. Mas é preciso humildade, tolerância e respeito. Precisamos nos expor mesmo que dentro de nós haja uma voz interior que diga que se expormos aquilo que sentimos vamos parecer infantis, imaturos, bobos.

As relações só são saudáveis quando nos permitimos sentir com responsabilidade, sem julgar uma emoção como boa ou ruim, mas podendo olhar para ela como uma oportunidade de crescer.

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Quando expomos uma fragilidade à alguém, permitimos que essa pessoa conheça a nossa história, os nossos traumas, as marcas mentais que registramos na nossa infância. E isso na maior parte das vezes não vai ser bonito, nem glamouroso. Pelo contrário. Nós vamos nos sentir ridículos, envergonhados, expostos. Mas é só assim que podemos realmente atravessar um momento doloroso: sentindo ele por completo. E é nesse momento que podemos também enxergar se essa relação vale a pena. A pessoa que está ao nosso lado tem que estar disposta a se expor, a ser honesta e a respeitar aquilo que sentimos.

Nas relações sem assertividade sentimos que estamos numa competição. Parece que em cada conversa ou discussão alguém tem que ganhar. E o vínculo que é cultivado é esse. A ideia de que alguém ali é superior e controla a situação. Mas no final todo mundo sai perdendo.

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O movimento da passividade é muito comum num relacionamento. Vamos engolindo várias situações que nos desagradam, até que chegamos num ponto em que há tanto ressentimento e rancor, tantas frustrações mal resolvidas, que não sentimos mais nada. É realmente como se ligássemos o botão do foda-se para aquela pessoa que antes amávamos.

E normalmente porque criamos expectativas muito altas. Esperamos que haja alguém no mundo que vá nos entender por completo, que vá saber o que estamos pensando ou esperando de cada situação, como se tudo que esperássemos do outro fosse tão óbvio para nós que não houvesse como não ser também para ele. E, no entanto, estamos todos fixados nas nossas próprias bolhas. Ninguém pode saber que algo é realmente importante ou necessário através da adivinhação. A especulação é um caminho frágil e inseguro.

Quando somos diretos e assertivos, permitimos que a pessoa nos corresponda naquilo que cabe aos limites dela. Compreendemos que aquilo que para mim parece crucial, para o outro pode parecer insignificante. E isso não pode nos fazer caracterizar alguém como ruim, cruel ou egoísta. Apenas pode nos ensinar que somos seres diferentes, com histórias diferentes, e únicos.

O equilíbrio só pode existir quando respeitarmos verdadeiramente o outro e formos também respeitados dentro disso. Sem cobranças, nem exigências. A tolerância é a qualidade básica de uma troca construtiva.

Muitas vezes não entenderemos o outro. Assim como não entendemos a nós mesmos. E isso não nos caracteriza como diferentes. Pelo contrário, esse é o momento em que estamos mais iguais: incompreendidos e incompreensivos.

Para não julgarmos o comportamento alheio, o movimento mais curador que podemos cultivar durante um desentendimento é o de olhar para o outro como se ele fosse uma criança. Ao lidar com emoções que normalmente julgamos como infantis e nos sentimos frágeis, nós acessamos momentos da nossa história que foram dolorosos. Momentos do passado em que nos sentimos abandonados, sozinhos e diminuídos.

E poder acessar essa emoção, esse trauma, é um dos maiores benefícios de uma relação íntima. São nessas situações que temos clareza sobre quem somos, como nos comportamos, o que viemos construindo. E, principalmente, como temos cultivado nossa relação com nós mesmos.

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Se soubermos nos acolher amorosamente, assumiremos aquilo que sentimos como uma possibilidade de mudança. Não nos prenderemos à uma marca do passado, mas a usaremos como uma forma de ressignificar a nossa experiência, trazendo um novo olhar para a maneira como julgamos a realidade. Entenderemos que a maneira como vemos e julgamos o mundo diz apenas sobre nós mesmos. E que, por mais doloroso que seja, atravessar o caminho das emoções é nos permitir cultivar relações compassivas, leves, sem tensões e mal entendidos. É nos permitirmos amar por inteiro, sem julgamentos e comparações, mas com entrega, confiança e liberdade.

Para transformar é preciso inspirar

Todas as pessoas que me causaram mudança me inspiraram de alguma forma. Fizeram com que eu chorasse e me sensibilizasse com o que eu vi, li ou ouvi delas. Fizeram com que eu quisesse não só me inspirar por elas, mas expirar aquilo que há dentro de mim e que pudesse inspirar também.

Quando começo a pensar sobre responsabilidade e sobre o mundo em que estamos vivendo, vejo muitas rupturas. Nós aprendemos a nos responsabilizar por coisas que não são nossas, e esquecemos de nos responsabilizar por aquelas que são.

Eu sou responsável por tudo aquilo que eu penso. Falo. Como. Crio. Destruo. Eu sou responsável por aquilo que as pessoas interpretam do que eu disse, mas não sou responsável pelas emoções que elas externalizam a partir daquilo que interpretaram. Eu sou responsável pelas minhas emoções. Somente as minhas. E todo o efeito delas no Universo.

Quando compreendo isso, começo a me mover de forma diferente pela minha vida. Enxergo com mais lucidez e clareza o que pode causar mudança efetiva, porque me relaciono intimamente com o que causou mudança saudável em mim.

Dentro disso, está o social. Estão as pessoas com quem eu me encontro, as pessoas a quem atraio, as situações que presencio. E o que eu posso fazer com tudo isso? No começo do meu encontro com as transformações sociais, quando criei intimidade com o feminismo, há cerca de 5 anos mais ou menos, eu lembro do quanto doía. Do quanto eu chorava e gritava pro mundo tudo que estava acontecendo. Eu briguei, eu gritei, eu criei muros. Eu fiquei muito sozinha.

E aí foi ótimo. É muito importante ficarmos sozinhas. Os melhores processos de autoconhecimento me aconteceram assim. Nós vivemos as experiências, mas é sozinha que aprendemos a assimilá-las internamente e efetivar a mudança.

Mas eu ainda sofria muito. Não havia como me entorpecer depois das informações: aquilo tudo estava dentro de mim me despedaçando. Aquilo fazia meu coração tremer e pulsar. Mas sangrar também. Aquilo não estava construindo nada.

Eu demorei muito pra entender o que o patriarcado causa de problema profundo e efetivo na nossa vida. Eu entendi a inferiorização das mulheres. Eu entendi a hierarquização social. Eu entendi a violência linguística, visual e midiática em que vivemos. Mas eu demorei pra entender que o que o patriarcado cria são muros.

O patriarcado quer que nós assimilemos homens e mulheres como seres distintos. Ele quer que nós continuemos pregando um feminismo liberal que grita e abraça com agressividade a mudança, pra que a mensagem não consiga ser passada. Ele quer que as mulheres fiquem tão revoltadas, que quando elas tentarem efetivar mudança, elas estarão com tanta raiva que a mensagem acabará corrompida.

Se eu acredito num mundo em que os homens são imutáveis, iguais e incapazes de mudar, eu abro portas pra que a verdadeira mensagem fique presa, escondida, velada. Eu incentivo que a guerra continue, sem propósito real, apenas destruindo tudo cada dia mais.

E não foi essa a mensagem que me inspirou.

Quando eu compreendo profundamente, dentro do meu coração, que o gênero é uma construção social, eu entendo que o meu feminismo é o feminismo de todos.

Eu passei muito tempo brigando com os meus demônios, e sem compreender como eles acabavam interferindo negativamente no que eu tentava transformar em mim e no mundo. Eu tive que ficar muito só, pra olhar pra mim, e entender realmente o que cada dor que eu sentia queria me comunicar. O que cada lágrima, cada pontada no estômago, queria me ensinar.

A nossa realidade social já está muito triste. As pessoas estão sofrendo, sofrendo muito. Com tudo. Nós estamos infelizes com nosso trabalho, com nossos relacionamentos, conosco. Nós estamos infelizes conosco. Eu repito mantras todos os dias pra aprender a me amar. Pra tentar aprender a olhar pra mim sem me comparar com ninguém, sem esperar o tempo todo que eu seja melhor. Pra aceitar que eu sou. Eu sou. E isso é a única coisa que importa.

Eu aprendi que a minha alimentação afeta diretamente na minha saúde mental. Aprendi que quando eu olho pra mim com amor, eu não me destruo com alimentos que ferem profundamente o meu organismo. Fragilizam a minha mente. O meu espírito.

Eu aprendi que se eu me alimento com palavras e pensamentos positivos, alimentos crus e vivos, eu sou uma inspiração pra mim. E eu causo mudança efetiva no mundo.

A questão da responsabilidade vai mais fundo por isso. Quando eu entendo que eu influencio as pessoas ao meu redor, que as minhas atitudes impulsionam quem está ao meu lado, eu começo a cuidar pra que as minhas atitudes passem a mensagem verdadeira. Eu paro de achar que o que eu como, o que eu falo, o que eu consumo é só problema meu.

Quando nós vemos uma pessoa fazendo alguma coisa, qualquer coisa, e essa pessoa parece feliz, nós nos influenciamos por aquilo. Quando uma pessoa está passando uma mensagem que parece ser honesta e justa com raiva e tristeza, nós também nos influenciamos por aquilo. Nós nos afastamos daquilo.

Quando eu entendo que a prática do feminismo parte do princípio do respeito e o respeito parte do amor, eu paro de brigar. Eu entendo que o mais importante é a maneira que eu me porto, é a coerência daquilo que eu digo com aquilo que pratico. É a compreensão de que se eu acredito que a sociedade precisa olhar para as mulheres como seres capazes e inteligentes, com particularidades complexas, eu preciso olhar pra todo mundo assim. Todo mundo.

Muitos homens não conhecem as mulheres. Quanto mais eu recebo comentários respondendo o texto no Papo de Homem, mais eu percebo o quão distante os homens estão da nossa complexidade. Eles acham que existe uma diferença muito grande entre nossos mundos, que somos seres muito estranhos e que em nada nos assemelhamos. Nessas, nós continuamos a incentivar os muros. Nessas o patriarcado continua ganhando.

Se eu entro na minha rede social, e eu grito pro mundo que eu odeio todos os homens, todas as trans*, todos aqueles que não são exatamente como eu, eu construo uma realidade muito difícil. Eu construo uma ruptura muito profunda. Eu destruo toda e qualquer porta de comunicação e encontro. E eu preciso do encontro pra me inspirar e me transformar. E depois expirar o que sou e transformar também.

Se eu grito pro mundo que todos os homens são horríveis, o patriarcado continua vencendo.

Se eu grito pro mundo que todos os homens são incapazes de mudar, o machismo continua matando.

Se eu grito pro mundo que eu odeio os homens, eu nunca ensinarei a amarem as mulheres.

Eu externalizo aquilo que está dentro de mim. E eu entendo o que é sentir revolta. Eu entendo o que é sentir raiva. Mas eu entendo também que permitir essa raiva sair da maneira que entrou sem nem me questionar sobre o que ela atingiu ou alcançou dentro de mim, faz com que eu continue me punindo, eu continue um ciclo infinito de ódio imutável e incapaz de causar mudança.

Quando eu vivo uma situação que me machuca, abraço as emoções de tristeza e dor, e aprendo com elas, aprendo quem eu sou com aquilo, aprendo como que aquilo se relaciona intimamente com as emoções que já existem dentro de mim, com experiências da minha vida, eu transformo aquela situação numa mensagem inspiradora.

Se eu vivo uma situação e sem questionamento algum eu exponho as emoções que aquela situação me causaram, eu continuo propagando superfície, eu continuo mantendo as mudanças no raso. Eu não encontro profundidade.

Mudança profunda é mudança orgânica, que transforma TUDO.

O homens nos comentários continuam nos comparando biologicamente pra justificar diferenças comportamentais. Por que será que eles precisam tanto se defender? Por que será que precisam tanto encontrar um ponto em que eles continuem se mantendo diferentes de nós?

Nós não estamos criando pontes. Nós estamos criando barreiras.

Se eu brigo comigo, eu brigo com todo mundo. Se eu não me conheço, eu fico tentando me encontrar em padrões e me fazer caber e encontrar com frases de autoafirmação segregadoras. Eu não quero segregar.

A segregação só continua gerando medo. E o medo faz com que os muros nunca se quebrem. Quando eu me desafio, quando eu olho pro meu medo fantasiado de raiva e de agressividade, eu não confundo. Eu sou capaz de passar a mensagem verdadeira.

Eu sou capaz de inspirar.